domingo, 31 de janeiro de 2010

COMBATER O INSUCESSO ESCOLAR

A questão do insucesso e abandono escolares voltou à primeira página dos jornais. E é bom que assim seja porque são muito preocupantes os elevados índices que ainda mantemos. Convém contudo que aprendamos com a experiência, para que não repitamos os mesmos erros. Eis alguns erros que é preciso evitar:

- não cair na tentação de resolver o problema através de jogos estatísticos ou de facilitismos sem coerência.

- reconhecer que perante dificuldades que ao alunos apresentem, impingir-lhes “mais do mesmo” só consegue agudizar o problema.

Defendo que só em casos excepcionais se deve reter um aluno no mesmo ano. Mas para que isso não signifique “passagem à balda” é necessário deixar a cada escola decidir qual o melhor modelo para recuperar atrasos de aprendizagens que os alunos apresentem. É preciso que essa tarefa de “recuperação” não se transforme em sobrecarga de trabalho nem para o aluno nem para o professor. Isto é, que para o aluno signifique um melhor uso do tempo que tem de estar na escola; para o professor que esse trabalho seja considerado de “componente lectiva”.
A recuperação de atrasos deve ter lugar logo que detectado ou pelo menos logo no ano lectivo seguinte. E partir do princípio que, por norma, os atrasos de aprendizagem são recuperáveis, de modo a que os alunos possam logo que possível retomar o seu percurso normal. A eternização e generalização dos chamados “currículos alternativos” são de evitar, porque não recuperam, apenas discriminam.

sábado, 30 de janeiro de 2010

ENFERMEIROS

Não conheço suficientemente bem as razões que levaram os enfermeiros a estas formas de luta. Mas sei por experiência própria que quando uma classe profissional numerosa consegue greves — e foram  3 dias! — com adesão tão elevada que nem o Ministério da Saúde põe seriamente em causa os números avançados pelos sindicatos (80% para uns, 90% para outros) e consegue uma tão significativa manifestação é porque tem "carradas de razão" para os seus protestos. Também sei que ter "carradas de razão" não significa que consiga ou sequer que seja possível obter de imediato tudo o que seria justo. Mas obriga o governo a ceder-lhes coisas importantes. É a vida feita luta para obter bons resultados. Estão de parabéns os enfermeiros portugueses.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Ao SUL #34
















Fotografia de Felizarda Barradas, professora, dirigente do SPGL e fotógrafa. 

AVALIAÇÃO DE DESEMPENHO DOCENTE - APELO AO BOM SENSO

As reuniões que tenho vindo a fazer nas escolas em torno do acordo assinado entre os professores e o ME serviram para em mim arreigar a opinião de que as escolas públicas portuguesas não merecem ser transformadas em campo de luta pelas décimas no processo de avaliação de desempenho docente. Não há qualquer instrumento suficientemente aferido que permita distinguir o 7,3 do 7,2 ou do 7,4 na avaliação de desempenho
O interesse das escolas e o normal ambiente entre os professores exigem que não se vá por esse caminho.
Acreditando como Descartes que “o bom senso é a coisa mais bem distribuída”, divulgo a opinião que tenho sustentado: que a divisão das classificações atribuídas aos docentes, se tiver que haver, seja a de Insuficiente, Bom e Muito Bom. E se, por razões de contingentação, houver mesmo que “seriar” os professores classificados com Bom,  de modo a decidir quem tem lugar nas vagas abertas, que se use para esse (lamentável) fim a graduação profissional. Essa obedece a critérios objectivos e “universais”. A distinção entre 7,3 e 7,1 é simplesmente aleatória e como tal deve ser rejeitada. As escolas agradecerão. 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

DUAS PEQUENAS NOTAS SOBRE O ORÇAMENTO DE ESTADO PARA 2010

Sobre as grandes linhas e as grandes questões deste Orçamento de Estado lerei atenta e criticamente — na medida em que for capaz de criticar — o que peritos, sábios e celebrados comentadores forem escrevendo. Mas há duas ou três notas que quero sublinhar:

1. Há salários na administração pública que poderão ser congelados se a crise o exigir. Mas a grande maioria dos trabalhadores na administração pública central e local tem salários baixíssimos — muitos deles na casa dos 450 e 500 Euros por mês. Esses não poderiam nunca ser "congelados". Por uma questão de decência e de respeito. Congelar estes salários é, de facto, obrigar os mais pobres a pagar a crise. Os trabalhadores da administração pública têm toda a razão moral e política para protestar e para se manifestarem. Por outro lado, a perda de poder de compra dos trabalhadores em geral — porque este congelamento no sector público vai provocar aumentos baixíssimos no sector privado — vai tornar ainda mais difícil a vida das empresas pequenas, das lojas de bairro, do pequeno comércio. A menos que se desse um grande relançamento da economia — coisa em que ninguém seriamente acredita pelo menos em 2010.

2. As alterações permanentes das regras da aposentação, como aliás em outros campos, não ajudam a credibilizar o Estado. Para que os cidadãos confiem em quem governa é imprescindível que se ganhe confiança. Alterar permanentemente as regras é como mudar as leis a meio de um jogo — cheira a batota.

3. Afinal, o défice "parou" nos 9,3, muito acima dos valores que foram sendo sucessivamente "aventados". A que se devem estas disparidades?

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

CRECHES E INFANTÁRIOS

O jornal Público de hoje descreve a inacreditável odisseia para conseguir um lugar num infantário em Beja. Não há vagas. Pensava eu que este sinal terceiro-mundista só se verificava nos grandes centros – Lisboa e Porto e, claro, nos dormitórios anexos. Lamentável, de facto. E isto acontece apesar da nossa baixa taxa de natalidade.
Mas ainda mais difícil de aceitar é o final da citada notícia. Pode ler-se: “O anterior executivo da Câmara colocou à disposição dois terrenos para a construção de novos centros ou jardins de infância. Ninguém se candidatou à sua aquisição." Deverá perguntar-se se não poderia a própria Câmara construir esses equipamentos sociais indispensáveis. Terão os cidadãos de ficar dependentes dos interesses da iniciativa particular que, afinal, pelo menos neste caso, não existe?

Ao SUL #33

















Fotografia de Felizarda Barradas, professora, dirigente do SPGL e fotógrafa.