domingo, 7 de março de 2010

ISLÂNDIA

Os islandeses decidiram por referendo não autorizar que o seu governo pagasse a países estrangeiros (Holanda e Reino Unido) as dívidas resultantes da falência de uma das suas instituições financeiras – o Icesave. Foi a primeira vez após a independência, em 1944, que os islandeses foram chamados a um referendo.  A votação pelo não foi esmagadora – terá ultrapassado os 90% – apesar das ameaças do FMI, da certeza de que haverá “retaliações” internacionais e que, provavelmente, até o ritmo da sua pedida adesão à U.E. poderá abrandar significativamente. Reconheçamos que é um acto de grande afirmação de dignidade de um povo. Pelo menos obrigou o governo para já a renegociar as condições em que este “pagamento” estava a ser imposto pelos países credores.
Temo que os portugueses não fossem capazes de fazer o mesmo…

TRISTEMENTE CLARO

Um país  em que, pelos vistos, 60% dos eleitores acreditam que o seu primeiro ministro mentiu deliberadamente à Assembleia da República e que apesar disso voltariam a elegê-lo como primeiro ministro é um país que descrê de forma radical do seu sistema político. Mantém um mentiroso em São Bento porque não tem nenhuma outra alternativa. É uma derrota da democracia.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Ao SUL #40

















Fotografia de Felizarda Barradas, professora, dirigente do SPGL e fotógrafa. 

quarta-feira, 3 de março de 2010

O ENSINO PROFISSIONALIZANTE NA ÓPTICA DE SANTANA CASTILHO

Não sei se Santana Castilho terá toda a razão. Mas o que escreveu sobre o ensino profissional merece cuidada análise. Temos bem consciência de que este ensino profissionalizante não convence os mais exigentes 
Aqui se transcreve parte da sua crónica publicada no Público de 3 de Março. Para que sirva de base para a reflexão inevitável.

"(…) Um estudo, mais um, da OCDE, recentemente vindo a lume, permite-nos questionar a linearidade da relação entre mais educação e melhor emprego e reconduz-nos ao decantado problema da excelência da educação, que eu prefiro designar por qualidade da educação. A constante exortação à excelência ou à qualidade resulta ambígua, porque é muito usada mas nunca definida. E no contexto hoje em apreço, e sublinho que as presentes considerações são feitas apenas nesse contexto, o económico, a qualidade da nossa educação verifica-se conferindo a adequação daquilo que trata aos requisitos do mercado. Ora esse confronto é desolador. A decantada sociedade da informação e do conhecimento recompensa os países que inovam. Mas não reage a doses maciças de aprendizagem convencional em versão medíocre. Mais educação é decisiva para a competitividade nacional quando mais for também sinónimo de diferente e não for mais do mesmo Um bom exemplo da ausência de critério para planear a educaçãoa neste campo encontrámo-lo na evolução recente do ensino profissionalizante.
A nível superior, o ensino politécnico foi rapidamente desvirtuado e afastado dos objectivos iniciais. O desígnio foi, desde cedo, igualizá-lo ao ensino universitário, com as consequências à vista. A nível secundário, com todas as vicissitudes, chegámos finalmente às chamadas escolas profissionais, de iniciativa privada (ligadas a empresas e co-financiadas pelo Estado). Não tinham a generalização e a expressão do ensino técnico de outrora. Mas faziam trabalho sério e preparavam, eficazmente, para áreas profissionais, com forte valência prática.
Com a chegada de Sócrates ao poder, estas escolas foram gradualmente sufocadas, retirando-lhes o financiamento. Porquê? Porque não eram escolas do Estado. Porque os seus alunos estavam contabilizados fora do ensino público. Quando foram apresentados os primeiros êxitos”, dizendo que havia 20000 novos alunos que aderiram ao novo ensino profissional, não foi dito que as escolas profissionais tinham deixado praticamente de existir. Em rigor, a iniciativa do PS não aumentou o número de estudantes da via profissionalizante. O que fez foi roubar alunos ao privado, trazendo-os para o público e enganando-os: nos profissionais chumbava-se e trabalhava-se, nas públicas pouco se pede e passa tudo; aos que abandonavam o ensino, foi-lhes oferecida equivalência ao 12º ano através de cursos de treinador de futebol; oficinas e laboratórios não existem; as ferramentas são lápis e papel; os diplomas são passados mesmo que os estudantes faltem sistematicamente às aulas; os professores são, na maioria, os que ensinavam em formações humanísticas. E a isto chamam politica de excelência.”

terça-feira, 2 de março de 2010

ENSINO PRIVADO: ALGUM MERECE REPULSA

(A propósito das notícias informando que o ensino está em expansão e o público em retracção)

No ensino privado há realidades muito distintas. Há colégios e instituições que prestam inequivocamente um serviço público superando assim algumas debilidades do sistema público. É o caso de numerosas IPSS com as suas creches e infantários, é o caso de colégios em zonas onde não foram construídas escolas públicas, algumas escolas profissionais e algumas universidades. Cumprem um papel social, há que agradecer-lhes por isso, sem deixar de exigir ao sector público que assuma futuramente o seu dever.
Mas esta minha compreensão não a estendo às centenas de grandes colégios, boa parte dos quais ligados á igreja católica. Jesuítas, salesianos, inacistas, do Sagrado Coração, S.João de Deus, Opus Dei, enfim, um rol de casas quase sempre luxuosas, destinadas a uma elite (financeira), através da qual a igreja católica pretende construir os quadros que venham a assegurar, no governo do país, os benefícios e privilégios não só da própria igreja, mas também da oligarquia que nela se apoia. Os ricos alimentam a igreja pagando os seus colégios; a igreja paga aos ricos procurando garantir-lhes o controlo do país para que os seus dinheiros se multipliquem…mutuamente.
Mais do que formação religiosa, o que estas escolas procuram é criar elites políticas, ideologicamente formatadas, formalmente democráticas quando tal convier, mas de facto profundamente aristocráticas e antipopulares. E antidemocráticas se for necessário.
E não se argumente que também há a igreja para os pobres – a igreja dos centros paroquiais, das misericórdias, do apoio aos mais pobres. Há e essa gente merece ser respeitada. Mas esta arte de mexer bem os cordelinhos que movem a sociedade, de modo a tê-la sempre sob controlo é bem a marca desta triste igreja católica portuguesa. 
Tenho 37 anos de serviço sempre em escolas públicas, por opção. É aí que estão os “iguais”. É nessa escola que temos de investir – essa é a batalha que vamos ganhar. Contra as oligarquias financeiras e religiosas.

PELA FAMÍLIA SEM SER CONTRA NINGUÉM

No dia 20, ao som improvável de um hino gay, a Plataforma Cidadania e Casamento, com o apoio do PNR, organizou uma manifestação que juntou em Lisboa uns poucos milhares de pessoas, número muito aquém dos 90 mil subscritores da petição a exigir o referendo ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.
O lado mais negro desta manifestação é o seu próprio propósito: quem se mobiliza para exigir a negação de direitos a outrem não está a lutar por nada, mas contra um grupo de pessoas. Isto é óbvio, e os cartazes de ódio do PNR, bem rodeados por uma dezena de cabeças rapadas sedentos de violência, bastariam para o provar. Mas terão todos os manifestantes, desde as velhinhas que se arrastavam de crucifixo na mão aos jovens com ar bem-intencionado, consciência de que o ódio que destilam não cai só sobre os homossexuais, mas sobre todas as famílias, e que as principais vítimas destas campanhas são, precisamente… as crianças?
Não falo só das crianças eternamente à espera de serem adoptadas, a quem o preconceito nega o direito a uma família, estigmatizando o amor entre duas pessoas como não estigmatiza o abandono; nem tão pouco apenas das crianças a cargo de casais homossexuais (sim, elas existem), a quem a lei nega a protecção legal decorrente da co-adopção. Falo também de todas as crianças nas mais variadas estruturas familiares não tradicionais (monoparentais, reconstruídas, alargadas, etc), que têm o direito a crescer sem serem catalogadas como anomalia e sem verem posta em causa a legitimidade do que as estrutura. 
Defender um ranking de famílias, estabelecendo um modelo ideal que define todos os outros como degenerações é, antes de mais, fechar os olhos ao tecido social contemporâneo; mas é também defender que "a base da sociedade" se pode definir pela exclusão, regredindo até aos dias dos filhos de pai incógnito e das famílias não assumidas, e legitimando inclusive teses (absurdas) com a de que as famílias numerosas são aberrações por serem minoritárias.
Há famílias que se definem pelos laços que os membros estabelecem entre si e não por formatos abstractos, e que, comprovadamente, não são por isso nem menos nem mais funcionais que as outras. São aliás famílias que se mantêm como tal quando os formatos se alteram, estabelecendo redes de afecto e apoio muito mais fortes do que qualquer fórmula ideológica.
No fundo, tudo se resume a isto: as famílias funcionais não necessitam de passar atestados de menoridade às famílias dos outros. Defender a família é antes combater a exclusão, porque uma sociedade em que todos possam construir os seus núcleos de felicidade é sempre uma sociedade melhor.

Publicado no Esquerda.net

segunda-feira, 1 de março de 2010

Ao SUL #39

















Fotografia de Felizarda Barradas, professora, dirigente do SPGL e fotógrafa.