quarta-feira, 16 de junho de 2010

O TEMPO (CALCULISTA) DA VERDADE

Foram precisos 38 anos para que a verdade pudesse vir à luz do dia e reconhecer-se o que, sendo óbvio, pode agora aceitar-se sem que tal tenha qualquer inconveniente: a de que o “domingo sangrento” de Derry (ou Londonderry, na versão colonialista) não foi mais do que uma matança criminosa de inocentes pelo exército britânico. O actual chefe inglês pode acalmar a sua consciência e declarar-se muito pesaroso com o mesmo à vontade com que o chefe de então se vangloriava da acção correcta e firme das suas tropas.
Daqui a alguns anos, um qualquer chefe de Israel reconhecerá, muito pesaroso, que a matança de 9 pessoas e o ferimento de uma centena de cidadãos num barco de apoio humanitário a Gaza foi um acto criminoso das tropas de Israel – o chefe de agora afirmará que se tratou de um acto comedido e necessário à defesa do seu país.
Foram precisas dezenas de anos para que uns tantos defensores acérrimos do apartheid (entre os quais muita dita intelectualidade portuguesa) pudessem reconhecer que tal regime é um atentado à dignidade humana – agora já não perdem os seus lugares ao condená-lo. 
Foram precisos muitos anos para que pudessem ser reconhecidos como crimes várias práticas do estalinismo – até os secretários gerais comunistas de agora o aceitam com a mesma naturalidade com que os de antes o rejeitavam
Baltazar Garçon enganou-se no tempo: ainda não era possível mostrar a verdade sobre os crimes do franquismo. Por isso, tramou-se.
Será que a política é (também) a arte de armazenar e esconder a “verdade” até que ela possa, por inútil, ser “exposta”?

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