quarta-feira, 30 de junho de 2010

50 MIL MILHÕES DESBARATADOS ?

Um Processo-crime tão Invulgar como Importante

O jornal O Diabo (sim, eu sei que não é um jornal de “referência”) noticiou a 29 de Junho que o presidente da Associação das Pequenas e Médias Empresas (PME, essas que andaram na boca de toda a gente nas últimas eleições legislativas) solicitou à Procuradoria Geral da República a instauração de um processo crime contra o Estado e contra várias instituições, nomeadamente a Comissão de Gestão, Acompanhamento, Avaliação e Controlo das Verbas disponibilizadas pelo Quadro Comunitário de Apoio III, que vigorou entre Janeiro de 2000 e Dezembro de 2006, acusando-os de terem desbaratado 50 mil milhões de euros que deveriam ter servido para o desenvolvimento do país. Tráfico de influências e corrupção são as acusações formuladas.
Numa altura em que tentamos perceber por que estamos nesta posição de empobrecimento constante, esta iniciativa é lapidar e deveria ser levada muito a sério (A referida Comissão é constituída entre outras instituições, pela CAP, CIP, CPADA, UGT).

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A SITUAÇÃO ECONÓMICA DO PAÍS É INSUSTENTÁVEL?

A insustentabilidade da nossa economia e portanto do país – tornou-se o leit-motiv das lições de Cavaco Silva que não perde uma oportunidade de puxar dos seus galões de professor de Economia. Qualquer teórico sabe que a intervenção adequada sobre a realidade supõe que se compreendam as suas causas. Cavaco, ao analisar as causas que tornaram o país (ou a sua economia) insustentável, deveria ter presente quais foram os governos que nos conduziram a este estado de coisas. Não foram os gonçalvistas nem os comunistas. Foram os economistas e os políticos do PS e PSD. Foram  eles que traçaram (ou aceitaram que outros traçassem) o rumo, as medidas, os objectivos. São esses mesmos que, em vez de reconhecerem que erraram nas suas propostas para o país, continuam a empurrar a responsabilidade para outros: os salários de quem trabalha, os mais elementares direitos sociais como o apoio aos desempregados, os feriados… Começo a ficar farto da “cassete” destes senhores que supostamente têm sempre razão, mesmo quando a realidade nos diz, de forma muito crua, que erraram redondamente.

domingo, 27 de junho de 2010

NÃO É SÉRIO!

O secretário de Estado da Educação cedo afirmou reconhecer que é necessário repensar o horário de trabalho dos docentes. Perante a insistência da FENPROF — que sobre a matéria lhe enviou em devido tempo posições sustentadas e sensatas — o secretário de Estado da Educação afirmou sempre que tal seria discutido e negociado — porque é uma questão de negociação obrigatória! — no momento da construção do diploma que regularia o lançamento do próximo ano lectivo. Chegado esse momento, porém, usou da esperteza saloia  que o nosso povo atribuí genericamente aos políticos: invocando a urgência da publicação do diploma, recusa a negociação, reduzindo a participação da FENPROF a um mais do que meramente protocolar pedido de "envio de opiniões" — como se as nossas propostas já lá não estivessem há meses para serem negociadas!
Alexandre Ventura fez jus à mais negativa opinião popular sobre os políticos — não são sérios e não dá para acreditar no que dizem. Se achar que esta crítica é injusta, só tem uma forma de o demonstrar: abrir de imediato as negociações sobre os horários dos docentes para o próximo ano. Caso contrário, não nos resta reconhecer que o nosso povo tem razão no que pensa dos políticos.

sábado, 26 de junho de 2010

TRABALHAR PARA O BONECO

1. Há um ano as escolas/agrupamentos elegeram os seus directores e conselhos gerais. Deveria ser por 4 anos; com a pressa dos mega-agrupamentos cumprirão apenas 1. Daqui a um ano, voltará a haver eleições. Queremos imitar o período da 1ª República em Portugal onde os governos se sucediam em escassos meses? Alguém pensou nas consequências desta permanente instabilidade?

2. Os directores, em princípio, foram eleitos com um programa para o agrupamento ou escola. Para que serviu?

3. Para que servem os Conselhos Gerais a quem o Ministério da Educação olimpicamente ignora neste processo? 

4. Fez-se grande questão na elaboração de cuidadas Cartas Educativos por concelho. Para que serviram, nos muitos casos em que os mega-agrupamentos a contradizem?

quarta-feira, 23 de junho de 2010

DAR 48 HORAS A DUAS ESCOLAS PARA SE CONSTITUÍREM NUM NOVO AGRUPAMENTO E INDICAREM UM NOVO DIRECTOR SÓ PODE SER LOUCURA (OU COISA PIOR)

No dia 22 do corrente mês, a DRELVT chamou à sua presença os directores das escolas secundárias do Lumiar e de Lindley Cintra, que por sua vez agrega um conjunto de escolas do 1º CEB e jardins-de-infância. Porque no “ambiente” se respirava a construção de “mega-agrupamentos “ o tema da “conversa” era mais que óbvio, nem estes dois professores esperavam outra coisa. Até se pode justificar este agrupamento: as escolas são vizinhas e nenhuma delas tem demasiados alunos. O que ninguém com um mínimo de bom senso poderia esperar é que a DRELVT lhes desse 48 horas para indicarem um novo director para o novo agrupamento – cujo mandato será de apenas 1 ano – sob a ameaça de que se o não fizessem, a DRELVT o faria.
Estiveram estas escolas há um ano a eleger o seu director. Numa delas houve que “refazer” a escola escanqueirada por um presidente, nomeado pela DRELVT, cuja incompetência ficou célebre. Planificaram o seu trabalho, num contexto que o deixará de o ser em… 48 horas. A opinião da escola e das comunidades educativas não interessa, nada se discute, nada se pode questionar: são 48 horas e pronto!
Se não é loucura, será certamente uma coisa bem pior que atravessa a DRELVT: uma enorme falta de respeito para com as escolas e as pessoas. Fica contudo claro o que são os directores na perspectiva da DRELVT: “paus mandados” para fazer cumprir as ordens. Mesmo as mais absurdas como estas. Felizmente, muitos directores recusam esta concepção. É o caso destes dois que vão consultar as suas comunidades educativas.
Se a intenção é fazer os mega-agrupamentos com estes métodos, isto vai dar brado!

segunda-feira, 21 de junho de 2010

AS PALAVRAS

Enviado por Natália Bravo

“As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpa. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras estão ausentes. Algumas palavras sugam-nos, não nos largam; são como carraças: vêm nos livros, nos jornais, nos slogans publicitários, nas legendas dos filmes, nas cartas e nos cartazes. As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras.
E há os discursos, que são palavras encostadas umas às outras, em equilíbrio instável graças a uma precária sintaxe, até ao prego final do Disse ou Tenho dito. Com discursos se comemora, se inaugura, se abrem e fecham sessões, se lançam cortinas de fumo ou dispõem bambinelas de veludo. São brindes, orações, palestras e conferências. Pelos discursos se transmitem louvores, agradecimentos, programas e fantasias. E depois as palavras dos discursos aparecem deitadas em papéis, são pintadas de tinta de impressão – e por essa via entram na imortalidade do Verbo. Ao lado de Sócrates , o presidente da junta afixa o discurso que abriu a torneira do marco fontanário. E as palavras escorrem, são fluidas como o «precioso líquido». Escorrem interminavelmente, alagam o chão, sobem aos joelhos, chegam à cintura, aos ombros, ao pescoço. É o dilúvio universal, um coro desafinado que jorra de milhões de bocas. A terra segue o seu caminho envolta num clamor de loucos, aos gritos, aos uivos, envolta também num murmúrio manso, represo e conciliador. Há de tudo no orfeão: tenores e tenorinos, baixos cantantes, sopranos de dó de peito fácil, barítonos enchumaçados, contraltos de voz suspensa. Nos intervalos, ouve-se o ponto. E tudo isto atordoa as estrelas e perturba as comunicações, como as tempestades solares.
Porque as palavras deixaram de comunicar. Cada palavra é dita para que não se oiça outra palavra. A palavra, mesmo quando não  afirma, afirma-se. A palavra não responde nem pergunta: amassa. A palavra é a erva fresca e verde que cobre os dentes do pântano. A palavra é poeira nos olhos e olhos furados. A palavra não mostra. A palavra disfarça.
Daí que seja urgente mondar as palavras para que a sementeira se mude em seara. Daí que as palavras sejam instrumento de morte – ou de salvação. Daí que a alavra só valha o que valer o silêncio do acto.
Há também o silêncio. O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e as más. O trigo e o joio. Mas só o trigo dá pão”.

José Saramago, “As Palavras” in Deste Mundo e do Outro – Crónicas
Caminho - 1986

sexta-feira, 18 de junho de 2010

OBRIGADA, SARAMAGO

Tinha eu 11 anos, e o meu pai pôs-me um livro nas mãos, com um esgar de gozo nas barbas: "só quando o leres é que és gente". Era o Memorial do Convento, e levei uns 3 anos a passar da primeira página. Quando consegui, finalmente, encher o meu mundo de Blimundas e barcarolas, passei de facto a ser mais gente. Obrigada, Saramago.